SEMIÓTICA*

 

 

Depois de ter chorado por horas a fio, levantei daquele colchão com a cara mais inchada do mundo. O ventilador, do lado direito do criado-mundo, rugia como um motor velho que resiste ao tempo por saber que não havia nenhum níquel em meus bolsos para comprar outro que suprisse a necessidade de uma fresca nos momentos de calor quando o suor apertasse. Soprando aquele ar semi-morno com temperatura variando entre o mormaço e o agradável, o frio me bateu na espinha. Eu já tinha chorado a soluçar, por duas horas seguidas, balbuciando palavras que agora não saberia dizer quais eram. Há alguns segundos atrás, antes d'eu respirar fundo para parar com aquele drama todo, eu parecia em estado de transe, como se eu estivesse travando uma batalha épica comigo mesma e meus sentimentos. Afinal, por que eu estava triste daquela forma? Era o peso da maturidade montando em minhas costas? Ok, eu lembro que de uma frase, mas ela não vai ter muito significado aqui: "Por que, meu Deus? Por que?". Isso eu recordo ter dito.

 

Mas então, aí eu levantei com a cara inchada. Pelo que eu lembro ter mencionado há poucos segundos, eu tive uma crise de choro. Nessa crise de choro o criado-mundo, o ventilador... e o basculante. Já falei do basculante? Apesar do quarto não ter vista para a rua, quando eu levanto a cabeça e olho pra cima, vejo o céu. Eu levantei, com a cara inchada de tanto chorar e me dei conta de que deviam ser umas 5h da manhã. É que o céu já estava dando sinais de raios do sol, com o dia clareando. Eu já sabia disso, só que neste exato momento, parece que me caiu a ficha de quantas vezes eu estive acordada a pensar nos meus males e a derramar tantas lágrimas. Como essa hora o azul era melancólico. Por sinal, meu quarto também é a mesma coisa do céu às 5h da manhã.

 

Colchão, criado-mudo, ventilador, basculante. Abri a porta e fui ao banheiro. Sentei no vaso, mijei e esqueci a porra do papel higiênico. Odeio quando esqueço de pegar papel higiênico. Pra homem não é necessário, já que ele tem a opção de dar aquela balançadinha (mas a última gota é sempre privilégio da cueca). Agora pra mulher é indipensável. Chacoalhar a vagina após o alívio da urina não só é patético como só piora a situação: respinga xixi pra tudo quanto é lado, molhando a calcinha em tantos pontos diferentes que nem se pode imaginar. E a urina vem da digestão da água (seja ela a que passarinho bebe ou não). Na via crucis de volta ao quarto, fui à geladeira e bebi direto da boca vários goles. E ninguém venha achar ruim porque eu bebi direto no gargalo. "Mimimi micróbios, mimimi saliva." Foda-se. Pra viver basta estar vivo. E esses germes são familiares. Todo mundo aqui em casa os compartilha desde 1984, ano em que eu nasci. 1984 por sinal, de George Orwell, é o meu livro preferido. Me elogiaram um dia desses porque uso uma frase do livro na assinatura do meu e-mail. Minha caixa de e-mails sempre fica cheia de release de jornalistas e empresas que acham que a profissão é só escrever essas coisas pra plantar em jornal, Deus me livre.

 

Banheiro, geladeira, água da boca do vaso. O corredor daqui de casa, estando na cozinha dá direto para o quarto de minha mãe. Estranho... a porta do quarto dela estava aberta e ela sempre fecha porque o quarto também é do lado da sala e atualmente eu tenho ficado até tarde lá sentada em frente ao computador, fazendo qualquer coisa na Internet. Se ela não se tranca, a ladainha sobre a conta de água, luz, telefone, plano de saúde, desenvolvimento sustentável e previsão do tempo desvaforável a quem é pobre recai sobre as minhas costas, pois logicamente tudo é culpa minha. Estranho... a porta do quarto dela estava aberta. Será que ela ouviu meus soluços e veio sorrateiramente pela noite, se esgueirando pela casa, só pra me ouvir chorar? E se ela me ouviu chorar, por que peste é que ela não entrou pra me dar um abraço e me consolar? Minha mãe é estranha. Acho que é mal de família. Família... de vez em quando eu penso em ter uma, um filho ou dois, sei lá. Pra cuidar de mim quando eu estiver velha, sabe?

 

Banheiro, geladeira, água da boca do vaso, corredor, quarto de minha mãe, sala. Abrir a porta do meu quarto me remete a coisas que as vezes eu não queria lembrar. Como da época que eu com crise de anorexia disse que não ia comer nunca mais pra que ninguém me chamasse mais nunca de gorda. Hoje em dia, pensando bem, eu ligo é bosta, quero que todo mundo se foda e meu pau cresça. Não que eu tenha um pau, a questão é que têm expressões que a gente usa só pra denominar nosso sentimento. O meu de desprezo eu soube materializar agora com esse comentário machista onde tudo gira em torno de um falo. O meu, no caso, imaginário. Imaginação é foda de vez em quando, porque faz você pensar em absurdos que nem de longe estão pra acontecer. Principalmente quando a mulher está de TPM. Basta falar um "ai"a mais que a tsunami começa.

 

Pensando bem, eu não entendi até agora porque eu dei mais detalhes do ventilador e do basculante. Como se eles fossem os únicos objetos que existissem no quarto. Sei lá, agora parando pra pensar nisso, fiquei viajando numa coisa meio filosófica de que o ventilador ventila (duh) e joga o vento mau na direção da janela e recicla, circula e tal. Que bosta! Isso tudo é culpa de ter estudado Semiótica. Se eu não tivesse me ligado tanto na pseudo-maravilha que é analisar significados e significantes, com certeza eu já teria dito em uma linha o por quê d'eu ter estado chorando. "Ter estado" é quase um gerundismo. Falar nisso, quase fiz uma atendente de telemarketing chorar. E o pior é que eu fui educada, imagine se eu fosse grossa. Odeio quem me liga pra oferecer qualquer coisa de empresa.

 

O caminho do banheiro até o meu quarto nunca foi tão longo como nestante. Se forem uns 15 passos, digo que é muito. Todavia, andei que só. Árduo caminho até sentar em minha cama de novo pra pensar no que aconteceu pr'eu ficar neste estado. Caramba, tô arrotando até agora a macaxeira frita com carne do sol que comi num restaurantezinho 8h da noite passada. Já deve estar marcando no relógio quase 6h da manhã do outro dia e eu já estou escutando o rádio ligado na cozinha, com minha mãe fazendo as coisas aqui. O que me faz concluir que eu comi há 10h atrás. Meu aparelho digestório deve estar uma desgraça, porque dizem que no máximo a gente digere a comida em 5h. E já tem o dobro! Preciso de um endocrinologista. Por falar em urgência, o Omeoprazol está acabando e se eu ficar em o remédio, é azia o dia inteiro na certa.

 

Agora, sentada aqui no colchão, eu sinto os olhos apertados. Eles devem ter desinchado do chororô e o negócio agora é sono mesmo. Ando com insônia esses tempos e até pensei que chorando eu ia dormir mais rápido, mas que nada! Tô é aqui de pé há horas e certeza que eu vou perder o dia todo dormindo. Mais um dia perdido. Apesar de não estar trabalhando, eu poderia acordar cedo todo dia, nem que fosse pra fazer caminhada, pra ler, escrever, ser voluntária em alguma ONG. Porra de ONG! Porra de nada, PORRA NENHUMA! O preço da latinha de cerveja que eu gosto tá no supermercado de R$1.29, que absurdo!

 

Colchão, criado-mudo, ventilador, basculante, porta, banheiro, água no vaso, corredor, porta, colchão, choro, minha cara inchada. É que eu estava só precisando de uma abraço, sei lá, abracos são bons, eu devia abraçar mais. Eu queria era que todo mundo ficasse triste nesses momentos que eu fico triste porque sinceramente a felicidade alheia, quando eu me afundo na merda, me incomoda. Me incomoda também eu não saber em alguns momentos como é que eu coloco vírgula no texto, aí eu escrevo tudo ou com muita vírgula ou sem vírgula nenhuma. E cara, se tem uma coisa que eu não suporto é gente burra que não sabe fazer um O com um copo, puta que pariu nós todos, amém. Vírgula nem é tanto problema, o problema é erro de concordância brutal, gente que tenta escrever difícil e pra mim sai por imbecil pedante, que quer aparecer com linguagem prolixa e na verdade não sabe mais do que meia dúzia de palavras decoradas.

 

A verdade é que meu choro é de alguém perdido e que não sabe como se achar.

 

 

* Considera-se tudo aquilo que se força sobre nós, impondo-se ao nosso reconhecimento, e não confundindo pensamento com pensamento racional, tudo o que aparece à consciência. (Charles Sanders Pierce - filósofo, cientista e matemático americano)



Escrito por Débora Andrade às 15h28
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Débora Andrade é Radialista, oriunda das terras amaldiçoadas pelo Cacique Serigy. E Povo Bunda não é só aquele que passa diante dos seus olhos. Muitas vezes ele é refletido em frente ao seu próprio espelho.



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