DAS COISAS QUE EU QUERIA TER ESCRITO

 

 

- Aonde vamos agora Paola?


  - Para casa, nossa casa.


  - E depois?


  - E depois entramos, e você se põe à vontade.


  - E depois?


  - E depois toma uma bela chuveirada, e faz a barba e se veste decentemente e depois comemos, e depois... o que gostaria de fazer?


  - É justamente isso que não sei. Lembro de tudo que aconteceu depois de acordar, sei tudo sobre Júlio César, mas não consigo pensar no que vai me acontecer depois. Até hoje de manhã, não me preocupava com o depois... no máximo com o antes que não conseguia lembrar. Mas agora que estamos indo para... para alguma coisa, vejo névoa também na minha frente, não só atrás... não é uma névoa diante de mim, é como se estivesse com as pernas bambas e não pudesse caminhar. É como pular.


  - Pular?


  - Sim, para pular é preciso dar um salto para a frente, mas para fazer isso é preciso tomar distãncia, e portanto, dar uns passos para trás. Se não vai para trás, não vai para frente. Aí está, tenho a impressão de que para dizer o que farei preciso ter muitas idéias sobre o que fazia antes. É para mudar algo que havia antes que nos dispomos a fazer alguma coisa... se você diz que devo fazer a barba, eu sei por quê, passo a mão no queixo, sinto que está cheio de pêlos e preciso tirá-los. O mesmo se me diz que preciso comer, lembro que a última vez que comi foi ontem à noite, uma sopinha, presunto e pêra cozida. Mas uma coisa é decidir fazer a barba ou comer, outra é dizer o que vou fazer depois, a longo prazo, quero dizer... não entendo o que quer dizer a "longo prazo", pois me falta coisa "a longo prazo" que existia antes. Deu pra entender?


  - Está dizendo que não se vive mais no tempo. Nós somos o tempo em que vivemos. Você gostava muito das páginas de Santo Agostino sobre o tempo. Sempre disse que ele foi o homem mais inteligente entre quantos já viveram. Ele nos ensina muita coisa a nós, psicólogos de hoje. Vivemos nos três momentos: a espera, a atenção e a memória. E um não existe sem o outro... você não consegue se projetar para o futuro porque não perdeu seu passado. E saber o que Júlio César fez, não ajuda a saber o que você tem que fazer.
 


(ECO, Umberto. A misteriosa chama da rainha Loana)



Escrito por Débora Andrade às 02h31
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Débora Andrade é Radialista, oriunda das terras amaldiçoadas pelo Cacique Serigy. E Povo Bunda não é só aquele que passa diante dos seus olhos. Muitas vezes ele é refletido em frente ao seu próprio espelho.



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