morte natural ou acidental?


 

Acredito muito nessa questão de dom. Sei lá, aquela coisa que você nasce com aquela estrelinha que brilha testa. Há sempre as pessoas que se esforçam, mas podem perceber que quem tem o feeling da coisa e faz bem é porque, quando estava sendo concebido lá por Papai do Céu, ele colocou um pó de pirlimpimpim, lhe dando algo que ninguém tinha. E entre os diversos dons que Deus me deu, o que mais se destaca é o da fuleragem.

 

Lembro que desde pequena eu já aprontava muito, pregava peças de todas as sortes com quem quer que fosse. Claro que não era uma coisa descarada, pois para mim, humor sempre teve a cor negra (mesmo quando eu ainda não sabia diferenciar essas coisas). E é por isso que, a pedidos, vou contar mais uma das minhas lembranças da infância. Com vocês...

 

LEMBRANÇAS DA INFÂNCIA – PARTE 2

 

O início da puberdade. Esta, se não uma das, com certeza é a pior fase de um ser humano. Aquela onde as dúvidas sobre comportamento, aceitação e até sexualidade começam a pairar no ar. Segundo estudos psicológicos e até psiquiátricos, todo cuidado é pouco quando uma pessoa entra neste período da vida, pois qualquer acontecimento negativo pode resultar em traumas irreversíveis ou difíceis de curar sem anos e anos de tratamento e acompanhamento constante.

 

Pois bem, Pabllo tinha oito ou dez anos de idade nesta época. Os primeiros fios de pentelho nascendo entre as pernas. A voz infantil já apontava problemas de modulação entre o agudo e o grave. Nesta metamorfose entre menino e homem, ele já se dava conta das diferenças entre garotos e garotas e sorria sempre de soslaio toda vez que se dava conta de que “meninos têm pênis, meninas têm vaginas”. E todas as vezes, na hora do banho, enquanto estava a lavar seu “diferencial”, olhava  aquilo como se tivesse ganhado um prêmio, diante da admiração com a qual o segurava entre as mãos.

 

Mas as mudanças, ao mesmo tempo que causam fascinação, causam medo. É que diante das transformações há uma insegurança de que nada dê certo, de que tudo possa mudar o status de felicidade para algo que nos incomoda, que nos envergonha e nos entristece. É a história dos patinhos feios que se transformam em cisnes... mas outros podem ter o processo inverso. E o medo de não ser aceito, incluso e amado é o fato determinante.

 

Um belo dia, Pabllo estava no banho e eu fiquei observando. Enquanto ele se divertia se lavando e balangando os documentos de um lado pra o outro como se fosse algum tipo de brinquedo-pêndulo, eu o chamei e tive uma conversa séria. Pedi para que ele prestasse bem atenção e que compreendesse que aquilo era uma etapa a qual ele, como todos os outros homens, deveriam passar. Expliquei, com detalhes, que “algumas coisas acontecem no corpo da gente”, mas que viria só para fazer dele um homem forte e saudável mais tarde. Com uma didática de impressionar a qualquer discípulo de Paulo Freire, esmiucei em pormenores como é que isso ia acontecer e de que forma ele deveria agir perante a sociedade, para que esta não fizesse qualquer tipo de zombaria como “olha, já está ficando um rapaizinho” que tanto envergonha os que assim são taxados.

 

Olhos atentos, apreensão. Cada palavra que eu dizia, fazia o medo tomar conta de Pabllo, que sem saber o que fazer e a quem recorrer no exato momento, prestava atenção nas minhas palavras ao mesmo tempo que – em movimentos compulsivos – balança a cabeça negativamente, custando a acreditar naquela que parecia ser a sua sina. Ao términode toda a explanação, o desespero tomou conta do seu semblante e ele desandou a chorar.

 

Desesperado, Pabllo saiu à procura do meu pai. Coberto por um manto de lágrimas e sem saber o que fazer daquele momento em diante, ele conseguiu – entre soluços – desabafar ao seu herói e confidente:

 

 - Paaaaai, eu não quero que ele caia não! Não quero não!

 

Sem entender nada, meu pai tentava acalmá-lo.

 

 - Calma menino, o que foi que aconteceu? Alguém lhe bateu, lhe fez algum mal? Chegue aqui, conte pra painho o que foi que aconteceu...

 

Até que Pabllo conseguiu explicar:

 

- É que Débora disse que meu pinto vai cair e só depois que eu crescer é que vai nascer um maior. Que nem o seu.

 

Eles na varanda da casa do meu pai e eu na sala, me contorcendo no sofá de tanto rir. Meu pai tentava ficar sério, mas não tinha nem como deixar de rir e nem de convencer o pequeno de que o que eu tinha dito era mentira. Eu fui convincente demais. O que aumentava a minha crise de riso e a tristeza de um menino de oito anos (ou dez anos, sei lá mais) que pensou que ia ficar eunuco até outro piupiu começar a nascer. E eu perdi de apanhar naquele dia só porque acho que meu pai ficou impressionado com o alto teor de fuleragem da brincadeira.

 

Pabllo hoje tem 20 anos, constatou que era mentira minha, tem um pintão e é o terror das menininhas no Parque da Sementeira.



Escrito por Débora Andrade às 18h13
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LEMBRANÇAS DA INFÂNCIA

 

 

Hoje é Dia das Crianças e todo mundo entrou numa onda de ficar relembrando as coisas de quando era pequeno. Como minha vida anda muito agitada aqui em Manaus (mentira), vou dar um tempo nessas baladas para lhes contar sobre um fato da minha infância que eu me lembro com muito carinho.

 

Eu sou mais velha que o meu irmão mais novo uns cinco anos. A época direito eu não vou lembrar, mas acho que eu tinha uns sete.

 

A minha casa em Aracaju é muito pequena e toda estranha. Na verdade é como se fosse um apartamento, pois em uma casa enorme de esquina, minha mãe, meu irmão e eu morávamos (eles ainda estão lá) na parte de cima e uma tia minha na de baixo. Entrando em minha humilde residência, a primeira coisa que se vê depois das escadas é um espaço usado como “sala de jantar”. Ao lado esquerdo - em ordem - vem o banheiro, a real cozinha que só tem espaço do fogão e da pia e a área de serviço. Do lado direito continua a casa com meu ex-quarto, corredor, sala e por último o quarto da minha mamãe querida.

 

Nesta idade meus pais ainda não eram separados, mas era como se fosse. Meu pai trabalhava numa empresa terceirizada da Petrobras, o que fazia ele ficar embarcado por vários dias. Minha mãe, mulher multifuncional (trabalhando o dia todo e de noite cuidando dos filhos), então me colocava para fazer o dever  na mesa da “cozinha”  quando chegava em casa, enquanto cozinhava o jantar e brincava com o pequeno ao mesmo tempo. A mesa onde eu sentava (ela existe até hoje) ficava em frente à porta do banheiro, o que me obrigava saber se minha mãe ou minha meu irmão tinha feito suas necessidades fisiológicas naquele horário. O que para o meu azar, era sagrado.

 

Um belo dia, acostumada com a minha sina de estudante exemplar cheiradora de xixi e cocô caseiros, presenciei a cena mais ilariante da minha vida. Pabllo, com dois anos de idade, foi colocado no vaso sanitário por Dona Edna, que o deixou lá até ele “completar o serviço”, enquanto ela ia pegar roupas limpas para dar banho na criatura. Como eu estava presente na ocasião da saída de minha genitora do recinto, fui nomeada como a “Guardiã das Fezes Fraternas”, cuja função era zelar pelo sucesso daquela empreitada.

 

Pois bem, mãe sai de cena, eu fico fazendo o exercício e olhando Pabllo. Heis que, distraída  com minha tarefa, eu só escuto uns gemidos. Era um misto de dor, sofreguidão, angústia. Um mix de sentimentos que variavam entre exaustão e dor, uma batalha eterna entre o bem e o mal. Quando olho em direção ao banheiro, está o menino se segurando, com todas as forças que Deus lhe deu, na privada. Com a cara vermelha e inchada ele grunhia e falava:

 

- Sai bosta, sai.. HUUUUUUMMMMM.. Sai bosta sai!  

 

:~

 

Isso foi o suficiente pra maior crise de riso que eu já deu em toda a minha reles existência. E eu já ria escandalosamente desde pequena, o que chamou a atenção da minha mãe, que veio correndo olhar o que estava acontecendo. Enquanto eu chorava de rir estatelada no chão, Pabllo chorava dentro do banheiro porque a bosta não saía, o que levou minha mãe a fazer coisas que só mães fazem: enfiou a mão e arrancou o cocô maldito da bunda dele. Minha mãe, minha heroína.

 

Tá bom, depois eu apanhei porque fiquei mangando do meu irmão, mas essa é uma das melhores lembranças da infância que eu tenho. E com certeza eu vou levar essa surra com amor pro resto dos meus dias.

 

Pabllo hoje tem 20 anos e come alimentos que contém muitas fibras.

 


 



Escrito por Débora Andrade às 16h01
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