MENTIRA Certa feita, quando eu era uma menina moleca, pé no chão e cara melada de doce, eu parei quando escutei uma frase. Não vou lembrar em que situação ela foi dita e nem a quem, mas o que me vem à cabeça é que ela foi proferida por minha avó. Por entre aquelas frondosas árvores do quintal de sua casa, local onde eu mais me lembro de ter brincado na vida, ela soltou a seguinte afirmação: “A coisa mais fácil do mundo é fazer um mentiroso acreditar que você acha que aquilo que ele fala é verdade”. E foi no momento em que estas palavras entraram em meu ouvido que prometi a mim mesma tentar, por tudo, não mentir mais. Ou mentir o menos que pudesse. É que eu comecei a entrar numa paranóia de que, toda vez que eu contasse uma mentirinha, por menor que ela fosse, alguém ia olhar pra minha cara e me envergonhar na frente dos outros, chamando minha atenção com um risinho sarcástico ou uma frase como “Até parece que isso é verdade”. No começo era difícil. Era melhor inventar fatos mirabolantes a ter que admitir um erro, relatar ou delatar uma falta. Entretanto, eu ficava sempre desconfiada, que nem nos tempos de escola, em que eu era somente uma calças curtas e alguém peidava escondido. Aí vinha outro guri e logo ameaçava, dizendo que “quem solta pum fica com a mão amarela”. Se eu contasse uma mentira, já ficava olhando para os lados, com aquela cara de “por favor, ninguém olhe pra minha mão!”. Foi então que eu notei que meio mundo de gente vivia, não só com uma parte, mas todo o corpo amarelado. Tive nojo disso e pensei se não havia uma forma melhor de lidar com as situações sem ter que parecer tão suja assim. De tal maneira desenvolvi a “Arte de Omitir”. Se acontece algo, não falo nada. E se falo, sempre dou respostas curtas, duplo sentido, coisas vagas. E interprete você da forma como quiser. Se pensar errado e achar que é errado, me procure depois e pergunte direto. Estando eu de bom humor, e achando que devo, explico a situação em pormenores. Se não, não é nada disso, você que entendeu mal. Omitir eu posso. Mentir, jamais. Por isso que eu me escondo tanto de você. Vira e mexe, tudo volta e eu falo o que? Que não? Não posso. Ou falo que sim ou emudeço. Para o meu próprio bem – e até para o seu – prefiro não deixar que as palavras me saiam da boca a ter que colocar meus medos para fora... se eu tivesse como transpor tudo que está guardado, não teria como abanar a cabeça de forma negativa, seria fraude, a mais pura das falácias. Eu seria o próprio amarelo do peido entranhado na pele da face, do peito, do coração. Eu me amarelaria toda e você notaria o quanto aquilo foi falso, indubitavelmente falso. Mas se tem uma coisa que, mesmo eu querendo omitir, nunca vai deixar de ser verdade é... meu Deus.. como você me dói de vez em quando. E pode olhar a palma da minha mão agora.
Escrito por Débora Andrade às 03h36
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