A VARANDA
Debaixo deste céu triste e cinza de sábado, sento na varanda alheia, com um copo de café e um cigarro. A cada gole, um trago. Pensamentos que vão e vêm. Olho para os cantos e mesmo com toda a falta de alegria do infinito acima de minha cabeça me encantam as cores que vejo por todos os lados. Do mais simples vermelho-barro dos jarros até os violetas-gastos, beirando o furta-cor de trevos de três folhas velhos e cansados. Isso me faz lembrar o quanto sempre quis ter uma casa com plantas e árvores. O fato de ter nascido num lugar onde o verde nunca foi permitido, me fez gostar ainda mais do colorido ao meu redor. Desde que eu tenho consciência, as paredes da minha casa foram pálidas. Hora pelo próprio tom da pintura gélida, hora pela tristeza do mofo impregnado nas paredes cheias de infiltrações. E não tem nada que eu note com mais nitidez todos os dias que sua melancolia, onde malfadadas ao tédio vivem frustradas por seus olhos - as únicas quatro janelas que a ligam à rua – só terem a liberdade de ver o concreto dos paralelepípedos da passarela que fica em frente, já não bastasse a indiferença dos carros e suas cortinas negras que encobrem e , às vezes até, cegam. Sentada na varanda alheia com um copo de café e um cigarro, me vem à cabeça a prisão Dela de todos os dias, entre as velhas e confortáveis muralhas imaginárias, sem plantas e árvores. Tudo que eu sempre pude saber é que elas foram construídas com o esmero de quem se desespera em se proteger de algo que muitas vezes não sabe nem dizer o porquê. E não só as paredes, mas cada azulejo, cada rejunte, cada camada de cimento desta casa velha fazem parte da pseudo-fortaleza montada entre os limites do que Ela nunca quis admitir sobre as suas fraquezas. Os lances de escada que sobe e desce todos os dias, em horários sempre previstos dá o ar de relógio, de uma responsabilidade cansada, mas que sempre se mantém rígida como um general a comandar seu exército sob a forma do mal da nação. O trago do cigarro e o gole do café cadenciados me fazem pensar na falta de amor da vida Dela. Ela que raramente falou sobre o que sentia, que poucas vezes vi chorar – e quando via eram sempre lágrimas que só serviam para lavar seus olhos -. Acho que era a forma que Ela tinha de pedir a si mesma para enxergar além da desgraça destes tons pasteis e sem vivacidade da rotina em que Ela mesma se acostumou ter com mais necessidade que o ar que respira. Mas como eu falei há pouco, isso era raro. Tão raro que bastava qualquer esboço meu de tentar colorir a casa, como deixar o sol entrar ao abrir as ventanas, que um ódio lhe tomava de súbito. E num empurrão só, voltava a fechá-las, como um vampiro que teme a forte luz da claridade, mesmo gostando tanto do vermelho pulsante de sangue. Agora que o último gole de café e o último trago do cigarro entram por goela abaixo, levanto o corpo com os meus pensamentos e finjo me distrair com os formatos das pedras jogadas no chão e com os insetos que inocentemente perambulam na varanda da casa alheia. Me abaixo para ver os detalhes das coisas, como criança malina que agacha e meio que abraça as pernas, contemplando as descobertas mais fantásticas que sua jovem percepção pode entender. A casa que eu estou é engraçada, uma mistura da tristeza e palidez da minha casa com a alegria das cores das plantas e árvores de toda sorte fincadas entre a terra e o concreto, mesclada finalmente com os rostos que, apesar das mesmas rotinas que tomaram conta Dela, ainda deixam seus olhos e suas janelas viradas para o mundo. As chuvas vêm das nuvens, mas o sol sempre estará acima delas. Eu acho que é assim que eles pensam. Sorte deles. Ao entrar para agradecer a hospitalidade, devolvo o copo vazio, ainda com o cheiro forte da nicotina entre os dedos. Está na hora de retornar à minha casa sem varada e a Ela. Tenho que voltar àquela masmorra, agora tão minha. Tudo que eu sinto é dó... de mim e Dela. Pobres coitadas. Para disfarçar a cara de auto-piedade, dei adeus, sorri e disse: “Que plantas e árvores lindas vocês têm... minha cor favorita é o verde.”
Escrito por Débora Andrade às 21h03
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
COMO UM PADRE
Quando sozinha, ociosa e triste me procura Acolho-a como um padre Ou como amante, se preciso Como um padre, encho-a de ternura Como amante, sacio-lhe o ardor do instinto.
E sempre vem: frágil feito criança Cheia de esperança Buscando um peito amigo e sempre diz sentir-se bem comigo Mas nunca fomos, nem seremos namorados.
Jamais saíste abatida dos meus braços E com um tocar sutil dos lábios, finalmente, Faz-se sorridente e se vai Vai para outro dia retornar.
Quanto a mim, um tosco indiferente Não hei de negar o que me cabe Pois se importa para você Hei sempre de lhe acolher E deixar-lhe ir quando parte.
**Poema de Maurício - o que mais gostei, por sinal -, que escreve sob o pseudônimo de M. Ravel e tem como seu maior ídolo Vinícius de Moraes (o véio que fazia poesias pra comer as menininhas). Se o livro dele for lançado, o prólogo vai ser de minha autoria. E só pra não perder o costume... "Ô Maurício, meu filho... eita poesia VIADINHA, vuh? VIADÍSSIMA!".
Heh.
Escrito por Débora Andrade às 12h41
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|