morte natural ou acidental?


ENQUANTO VOCÊS REZAM, EU TENHO FOME

 

 

Noite. Chuva. Frio. Sentada na varanda da casa de um amigo, tomando café, fumando um cigarro, conversando sobre os sofrimentos do dia-a-dia. Heis que um personagem das ruas aparece...

 

 - Boa noite filhos de Deus. Por favor, vocês poderiam me dar um prato de comida? É que eu e meu irmão moramos na rua e estamos com fome...

 - Olha moço, vá aqui ao lado, porque toda a doação que a gente faz é para a Igreja...

 - Meu Deus é este aqui: *beija o crucifixo pendurado no pescoço*. A Igreja não é nada. Enquanto vocês rezam, eu tenho fome. Meu Deus é este aqui... e espero que vocês nunca precisem estar no meu lugar um dia. Mas obrigado e Deus lhes abençoe.

 - Eita porra... dessa eu gostei: “Enquanto vocês rezam, eu tenho fome”.

 

Enquanto eu, embasbacada olhava para o homem com a maior cara de idiota, ele andava até a Igreja. Pediu um pouco de comida e teve a refeição negada pelos fiéis que lá se encontravam assistindo a missa. As conversas com o amigo sobre as lamúrias da vida continuaram. Enquanto ele falava dos desamores e, em sentimento de empatia, eu chorava as pitangas de volta, o homem reaparece bufando de ódio, rogando as sete pragas do inferno.

 

 - Débora, vamos entrar que esse brother já tá me enchendo o saco.

 - Não, pô. Pode entrar. Eu gosto de escutar estes desabafos.

 - Boa sorte...

 

Essa foi a hora que eu realmente deveria ter entrado. Pequena burguesa, que chora por nada. Quem é você pra achar que sofre?

 

 - É, minha filha... o que mais me impressiona é a capacidade das pessoas de negar um pão. O mesmo pai que é o meu, é o seu. Minha filha, eu tenho 58 anos de idade, sempre vivi na rua, mas aprendi a não me corromper. Tenho Jesus no coração e ele sempre me proteje. Você está aí, sentada  na varanda desta casa, trancada e achando que está segura por trás destas grades. Eu não consegui nem um pedaço de pão para me alimentar, hoje vou dormir com fome. Mas não faz mal, porque eu sei que aquele de lá de cima me proteje. Vou dormir em qualquer calçada e ninguém vai mexer comigo, enquanto você coloca trancas em tudo quanto é lugar. Deus proteje a mim porque eu eu acredito. Ele proteje você, porque você pede. Esta é a única diferença entre você e eu. Você tem dinheiro, tem casa, mas não tem nada, vive aí, pensando que passa pelas maiores desgraças do mundo. Eu tenho esta roupa do corpo, Deus em meu peito e vontade de viver. Mas não tem nada não. Que Deus lhe abençoe mesmo assim. Mesmo você pedindo. Uma boa noite.

 



Escrito por Débora Andrade às 19h26
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MOMENTO DE REFLEXÃO


"A  carência é a inimiga do bom senso."



Escrito por Débora Andrade às 12h26
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SABEDORIA POPULAR

 

"Para amores platônicos, trepadas homéricas."



Escrito por Débora Andrade às 00h26
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Para mim aquele seria só mais outro dia em que eu caia nos braços de um homem qualquer para satisfazer um desejo, aliviar minha tensão. Os gemidos naquela hora, naquela casa deserta no meio do nada, só resultado do prazer de uma boa trepada, de um tremer gostoso após um orgasmo-troféu, conquista cretina de gente que contabiliza mais um em sua lista de lanchinhos amigáveis.

 

Por falar em lanchinho, minha fome por aquele homem era antiga. Nada demais, nada avassalador. Mas alguns contratos sociais-amorosos nos impedia de ter uma aproximação carnal como eu queria e o destino tratou de nos aproximar não pelo “amor”, mas pela dor. Viramos os melhores amigos de cachaça do mundo. Bebíamos juntos, honrando o deus Baco em qualquer lugar que fôssemos, numa ode eterna ao alcoolismo, à boa comida e à fornicação. Bacantes dançavam ao nosso lado, nuas, lindas e perfeitas, enquanto rodopiávamos ao redor de cada uma, fazendo jus às mais belas histórias de bebedeira.

 

Mas Dionísio nunca gostou do sol, assim suponho eu. Como diz o ditado, “à noite, todos ao gatos são pardos”, pois é sob o véu do luar que os espíritos se libertam, fogem de suas amarras. Mas infelizmente o relógio é o maior carrasco desses que têm como refúgio as sombras. Os primeiros raios da manhã são as algemas, as grades que os prendem novamente aos corpos, que ao abrir os olhos vão enxergar a mais crua realidade do amanhecer.

 

E foi assim que aconteceu. Após uma noite de intensos toques e sussuros ofegantes ao pé de ouvidos acostumados a escutar “te desejo” ao invés de “te amo”, ele pegou em minha mão. Nada demais - para quem tinha tocado, com aquela mesma mão, o mais íntimo do meu corpo – se não fosse ele me levar para a beira da praia para tocar o mar. Voltados para aquele mundaréu de água, eu só pensava no frio do tempo e do meu coração. Nada me comovia, só me excitava e depois acabava numa frustração da fome sem a vontade de comer. Foi ai que ele, ao se enroscar em minha cintura, jurou me esquentar com o acalento dos seus braços. E o sol nasceu. Maldito momento mágico, maldito raio de luz que me revelou àquele rosto claro e cabelo cor de fogo com a certeza de que aquilo dentro do peito ainda pulsava. Foi nessa hora que eu me apaixonei.

 

Mas a paixão é tesouro na rota de um navio fantasma, bandeira grande de caveira pendurada no mastro, tremulando o perigo pelos cantos que passa. E ele era o capitão desta embarcação que me fazia temer os meus sentimentos, há tanto enterrado em solos inférteis. Porém, cada porto é uma vida. E a vida daquele pirata barba ruiva tinha ficado nas mãos de uma bucaneira miserável. Triste dele que, como único bem, só tinha junto a si algumas botellas de gim, emoção engarrafada. “Gim é como fel, mas ainda prefiro sentir o gosto ruim disso a ter que saber que não tenho mais o que preciso”. Assim ele afirmava, assim eu sabia desde o começo. Mas eu não era pirata.

 

Depois deste dia, os ventos mudaram de direção. Barba Ruiva, cuja reputação de pirata cruel já percorria os Sete Mares, me aprisionou ao seu lado, me tomou como refém aproveitando a própria amarra que criei para mim em torno dele. Foi aí que ele conseguiu me prender em seu porão. Mas, mesmo no escuro, eu ainda olhava para cima, na tentativa de ter entre os vãos algo que me desse a esperança de um dia voltar a ver o brilho do sol refletindo em meus olhos cansados o calor daqueles pêlos alaranjados.

 

O tempo passou, mas os feixes de luz eram cada vez maiores. Tão fortes que acabavam confundindo minha visão. Comecei a ter alucinações, comecei a vê-lo não no convés, mas ao meu lado. Só que era tudo mentira, ilusão de ótica barata.

 

E foi durante este tempo na prisão que virei pirata. O que eram ninfas, se transformaram em taberneiras. O que era sentimento se transformou em run. Copo suspenso em brinde, corpo deitado em bebedeiras. E eu ria. Até que fui libertada daquele calabouço. Eu já estava pronta. Sol e lua, luz e sombra... nada mais fazia diferença. A esta altura eu era o braço direito do capitão.

 

Ao passar pelo porto no qual Barba Ruiva tinha deixado sua vida, apareceu outra bucaneira. Melhor do que fez a outra, ela roubou sua alma. O pirata agora lhe devotava o infinito do horizonte e todo o ouro e prata que encontrou ao longo de sua jornada. Eu, fiel escudeira, fiquei ao lado. Até me dar conta de que eu não fui feita para navegar. Como toda bucaneira, mais esta arrasou com a botija dos sentimentos do capitão e ele voltou ao mar, com a intenção de nunca mais colocar os pés em terra firme. Mas eu era a terra, eu era a sombra de um coqueiro, a água de coco no calor intenso, escaldante que parte a moleira. Ele sabia, mas tudo que eu queria, tinham levado embora.

 

Hoje, quando meus pés tocam nas areias da praia, lembro daquele fatídico dia em que por ele meu coração naufragou, da escuridão e da claridade após o astro rei se impor à frieza dos meus desejos. No fundo do meu íntimo tenho a certeza que mesmo sabendo que apesar das velas rasgadas, das bacantes, bucaneiras, dos porões, dos deuses, do ventos maus e das lembranças dos maremotos, o melhor lugar do universo é o acalento dos seus braços.

 

 

"Your dream world is a very scared place... your dream world is a very scared place... To be trapped... Shine in  time... shine in time.. shine in time... until you find..."

(Anathema - Closer)

 

 

 



Escrito por Débora Andrade às 13h45
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